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   Ibinda.com / Editorial Quarta Feira, 23.07.2008    
 
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Entrevista de Dom Duarte ao IBINDA.COM
 
«Não há machado que corte a raiz ao pensamento»

2006 foi um ano difícil para Cabinda. Independentemente das opiniões de cada um, a realidade é que os êxitos atingidos na Holanda em 2004 ruíram completamente, e retrocedeu-se a um ponto ainda mais complexo que nas vésperas da fusão das FLEC’s (Frente de Libertação do Enclave de Cabinda), quando Nzita Tiago e Bento Bembe decidiram unir a FLEC/FAC e a FLEC Renovada, e consequente criação do Fórum Cabindês para o Diálogo, FCD.

Cabinda está hoje dividida. A FLEC renascida em 2004 desmembrou-se, o FCD vive uma bicefalia, e a igreja repudia os seus pastores. Entretanto a população do enclave é obrigada a absorver as versões, posições, críticas e garantias de cada uma das partes.

Enquanto uns, ex-guerrilheiros, afirmam, por conveniência própria, que a resistência já não existe, os guerrilheiros activos confirmam a sua existência, e permanecem nas matas, provando que a paz em Cabinda, especialmente na floresta, é precária ou inexistente.

Durante décadas o governo angolano do MPLA recusou-se a reconhecer oficialmente a existência da FLEC. Hoje vivemos uma fase cíclica e paradoxal desta história, onde ex-resistentes não reconhecem os actuais resistentes. Mas o tempo obrigará aqueles que assinaram os Acordos no Namibe a reconhecerem a existência de uma resistência activa, tal como o MPLA reconheceu a existência dos signatários do Memorando de Entendimento.

Aqueles que se abraçaram em 2004 na Holanda, pondo fim às divisões e criando o FCD, voltaram as costas em 2006, e reciprocamente negam a legitimidade a uns e aos outros. Todavia o Fórum Cabindês para o Diálogo, FCD, foi criado por um grupo de homens, Nzita Tiago, Bento Bembe, Raul Tati e Agostinho Chicaia e só estes têm autoridade conjunta para o transformar, ou seccionar. Qualquer outra metamorfose que não parta dos seus fundadores é uma adulteração do já designado FCD de 2004.

Talvez, dada a proporção das divisões no Fórum Cabindês para o Dialogo de 2004, seja necessário em 2007 criar um Fórum para o Dialogo Cabindês, e pôr um fim definitivo às exclusões e cisões no seio das personalidades cabindas que contribuíram para a construção de uma história e de um ideal vivo.

A igreja católica terá de rever as suas posições, e reconhecer o valor daqueles que lutaram sempre pelo povo ao qual pertencem. Sob o risco de ridicularizarem a Palavra de Cristo que serviu de arma a Desmond Tutu, Ximenes Belo, e mesmo a Bento XVI quando o seu país se encontrava entregue a uma das mais sanguinárias ditaduras da história do século XX, pautada pela exclusão, racismo e depuração.

Por fim, a Mpalabanda existe! E perdurará. Os tribunais podem decidir a sua extinção, porém em Cabinda Mpalabanda é um «verbo» e uma «atitude», e tal como contava uma canção em Abril de 1974 «não há machado que corte a raiz ao pensamento».
Rui Neumann  
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