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Entrevista com ex-pároco da Sé Catedral Alexandre Pambo
Padre diz que até crianças têm medo de frequentar a catequese em Cabinda
2006-03-10 13:58:19
Cabinda - Até as crianças já têm medo de frequentar a catequese em Cabinda, revelou em entrevista ao Ibinda.com o padre Alexandre Pambo, ex-pároco da Sé Catedral do enclave, que reagiu à nota de imprensa divulgada pela Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), na segunda-feira, afirmando que é necessário repor «a veracidade dos factos».
«Custa-me muito, mas em nome da veracidade e da autenticidade e da objectividade dos factos, ergo o rosto e exponho o seguinte: No passado dia 25 de Janeiro do ano em curso, por volta das 11h45, terminava, no recinto do Seminário Maior de Filosofia, o retiro anual do clero local da Diocese», declarou o padre Alexandre Pambo ao Ibinda.com,.

Segundo o mesmo religioso, no final do retiro, o padre Raul Taty foi o primeiro sacerdote que, das mãos do administrador apostólico, D. Eugénio Dal Corso, recebeu o ofício da provisão que exarava a sua remoção das funções de reitor do Seminário Maior de Filosofia. «Logo depois dele», prossegue Alexandre Pambo, «seguiram os restantes sacerdotes. Pois, a entrega desta provisão confirma pura e simplesmente que o padre Raul Taty faz parte do `trio´ dos sacerdotes removidos das suas funções. Realça ainda a veracidade desta informação o facto segundo o qual, até à data presente, o Seminário Maior de Filosofia estar desprovido de equipa reitora».

Quanto ao ambiente que se viveu no acto da tomada de posse do novo pároco da Sé Catedral, o padre Alexandre Pambo considera que foi um empossamento inédito, «sui generis», e que «nunca se registou por estas partes».

«Como participante da eucaristia relativa à referida tomada de posse, ponho a mão na minha consciência e afirmo que os minúsculos aplausos que se registaram de maneira isolada e pouco insistente foram exibidos pelos cristãos que, habitualmente, frequentam as missas na Betânia, `Castelgandolfo´ e `Futungo de Belas´ do padre Carlos Mbambi, `bastião´ protegido e vigiado dia e noite pelas forças da ordem interna», acrescentou.

«No meio desta tempestade interminável», continua o mesmo clérigo, «em que até os pacatos `cegos de nascença´ já se aperceberam e vão, dia após dia, tomando consciência de que algo de `anómalo´ está acontecendo, o mais importante e expressivo não são os pequenos aplausos esporádicos que se fizeram sentir e nem tão pouco a expressão de contentamento geral manifestada pela nomeação do novo pároco - conforme expõe incorrectamente a nota da imprensa do Gabinete da CEAST».

Alexandre Pambo considera que foi «mais surpreendente, escandaloso, pouco eclesial e irreverente o modo como o `pobre e santo´altar foi `assaltado´». E justifica: «Escandaloso, pouco eclesial e irreverente, porque, numa jurisdição eclesiástica onde reina o respeito, a ordem e o bom funcionamento das actividades litúrgicas e para-litúrgicas, é impensável e um tanto quanto inadmissível que um sacerdote, seja quem for, possa `indossar´as vestes litúrgicas e presidir às cerimónias sem o conhecimento prévio do pároco da freguesia».

Segundo o padre Pambo, práticas semelhantes só são possíveis «onde os `protagonistas´ têm como fim primordial defender interesses e assegurar compromissos». Todavia, refere ainda, «o modo em como o altar foi assaltado, foi surpreendente, porque nem o sacerdote indicado para presidir à missa vespertina, nem o grupo coral, nem o pároco e nem os fiéis da Sé Catedral, ninguém contava encontrar diante do altar um `trio´ nunca visto».

O ex-pároco da Sé Catedral de Cabinda considera também que sejam quais forem as intenções e as vicissitudes ligadas a semelhantes notas de imprensa, «o ambiente posterior que se disseminou em toda área pastoral da Igreja da Sé Catedral é suficiente para corrigir toda a informação e `verbosidade´ divulgada pelo jornal `O Apostolado´», no dia 6 deste mês.

«Desde que teve lugar aquela `insólita´ tomada de posse, os grupos corais extinguiram-se, as crianças ganharam medo de frequentar a catequese, porque os arredores da igreja estão constantemente rodeados por polícias e outras forças desconhecidas, os catequistas visitadores e não visitadores barricaram-se nas suas residências e as missas dominicais assistem-nas na comunidade cristã de S. Tiago, zona pastoral da Paróquia da Imaculada Conceição», disse Alexandre Pambo.

Por fim, o sacerdote cabinda afirma que, «mais uma vez, uma instituição de renome perdeu a ocasião de ser não só fonte credível de informação, como também instrumento visível de unidade eclesial e como `sal da terra´ e `luz do mundo´ capazes de levedar as consciências e iluminar os corações dilacerados pelos vendavais suscitados pelos homens e pela História».
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