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Começou a «caça às bruxas»

Antigo Vigário Geral de Cabinda Raul Tati foi detido

Lisboa – A acção da FLEC/FAC a 08 de Janeiro deu os argumentos a Angola para iniciar uma onda de detenções nos meios nacionalistas em Cabinda. Depois da detenção Belchior Lanso Tati, chegou a vez de Raul Tati.

Durante mais de duas décadas o Governo angolano esquivou-se de reconhecer a existência de um conflito em Cabinda. Em 2006, com os acordos do Namibe assinados pela facção de Bento Bembe, Luanda reconhece apenas que a FLEC depusera as armas, como se nunca tivesse existido um passado de guerrilha.

Com a acção de 08 de Janeiro, que vitimou dois elementos da selecção togolesa e o motorista angolano, a consequente mediatização do acontecimento obrigou Luanda, tardiamente, a reconhecer que «algo está mal em Cabinda» impondo o termo de «atentado terrorista». Imediatamente a Human Right Watch (HRW) alertou que Cabinda poderia ser o palco de detenções arbitrárias como represália à emboscada.

As autoridades angolanas apresentam então à imprensa dois presumíveis responsáveis do ataque da FLEC/FAC. Segundo a resistência «realmente dois guerrilheiros que participaram no mortífero ataque ficaram perdidos na mata, após a retirada, mas conseguiram regressar às bases» acusando Angola de ter apresentado «dois jovens que nada teriam a ver com a resistência». Luanda insiste que os detidos «são guerrilheiros» e teriam feito «revelações graves sobre os organizadores deste ataque e da maneira como foi preparado e seus cúmplices», disse fonte da PNN.

Depois da detenção do docente universitário, Belchior Lanso Tati, a 13 de Janeiro, cinco dias após o ataque da FLEC/FAC, o antigo Vigário Geral de Cabinda, Raul Tati foi igualmente detido na tarde deste sábado, 16 de Janeiro, por motivos ainda desconhecidos.

Raul Tati, antigo Vigário Geral da diocese de Cabinda, desde sempre manifestou a sua posição pela «dignidade do povo de binda» como defendeu uma resolução pacífica para a «questão de Cabinda». Em 2004 participara activamente na reunião na Holanda que resultara na fusão dos dois movimentos armados do enclave e defendeu a criação imediata do Fórum Cabindês para o Dialogo (FCD) com a vocação de negociar o fim da guerra em Cabinda. Após uma decisão de 19 de Dezembro, na véspera de Natal, 24 de Dezembro 2009, Raul Tati foi suspenso pelo bispo Filomeno Vieira Dias de todo poder da ordem (exercício do sacerdócio) e consequente perda do estado clerical.

Ainda por confirmar está também a detenção este sábado do advogado Francisco Luemba que a 13 de Janeiro enviara um correio electrónico aos seus próximos onde manifestava o «receio de uma prisão iminente». Segundo Luemba a sua detenção seria justificada por Luanda pelo conteúdo do seu livro «O problema de Cabinda exposto e assumido a luz da verdade e da justiça» lançado em Portugal, que foi interpretado como uma incitação à violência, mas também, segundo as interpretações de Luanda, a obra conteria as linhas mestras da fundação da «Lubundunu», grupo da igreja católica que não aceitou o bispo Filomeno, além de um suposto plano estratégico da FLEC/FAC para atacar cidade de Cabinda.

O livro de Francisco Luemba serviu também de prova para justificar a prisão de Andre Zeferino Puati, que se encontra na unidade penitenciária do Yabi. Também o deputado da UNITA Raul Danda, que denunciou a detenção do antigo polícia Pedro Fuca, tem recebido «avisos» e «ameaças» de uma possível detenção. O jornalista Fernando Lelo que cumpriu 21 meses de prisão, acabando por ser absolvido em recurso pelo Tribunal Supremo tem recebido ameaças telefónicas anónimas.

Fontes da PNN na República Democrática do Congo (RDC) garantem que uma unidade militarizada mista (congolês angolana) composta por 500 elementos já está na província do Baixo Congo, concentrados em Tshela, com a missão de capturarem todos os presumíeis nacionalistas cabindenses.

Entretanto, Angola solicitou à França a extradição de todos os quadros directivos da FLEC presentes neste país. O Ministério dos Negócios Estrangeiros francês respondeu garantindo esta sexta-feira, 15 de Janeiro, que alertara Rodrigues Mingas, de nacionalidade francesa, auto proclamado secretário-geral da FLEC/PM que reivindicou o ataque em Cabinda, que as suas ameaças «eram inaceitáveis e não poderiam ficar sem seguimento» o MNE adiantou também que «o Ministério da Justiça francês já avançou com uma acção judiciária contra Rodrigues Mingas por apologia ao terrorismo». O porta-voz do Eliseu disse também que a «França pede aos seus amigos angolanos que não duvidem do empenho francês em perseguir os responsáveis pelo ataque».

Paris tenta assim abrir um novo ciclo de relações com Luanda abaladas com o processo de Angolagate que sentenciou Pierre Falcone a seis anos de prisão efectiva.

RN

(c) PNN Portuguese News Network

2010-01-17 00:17:51

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