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| Após os ataques de 08 de Janeiro |
| Cabinda face às suas contradições |
| 2010-02-05 15:25:33 |
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| Lisboa - Depois de uma longa fase de silêncio, o «caso de Cabinda» regressou em força. Os dramáticos acontecimentos do 08 de Janeiro contra a selecção do Togo provocaram uma vaga de comunicados, acusações, reivindicações e teses que afogam o problema de base. |
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Depois de um «tsunami» mediático Cabinda está agora face às suas contradições. Por um lado não está, ainda, esclarecida a autoria do ataque, por outro vários reivindicam e desmentem a acção.
No interior do movimento liderado por Nzita Tiago também as teses diferem. Uma ala da direcção da Europa defende que o ataque «foi uma maquinação de Angola», outra assume o acto. Em África a guerrilha ora defende que a operação foi «uma consequência do descontentamento da população», ora assume «plenamente a autoria da emboscada».
Outras «teses» ajudam a alimentar as contradições. Após o ataque no Massabi, Rodrigues Mingas reivindica de França, em nome da recém criada FLEC-PM, a operação, onde sublinha: «Esta operação comando é apenas o início de uma série de acção orientada que vão prosseguir-se sem interrupção sobre o conjunto do território de Cabinda» (sic). Mas, o comando militar da FLEC/FAC no Massabi garante que nunca viu guerrilheiros de outro movimento a operar na região.
Fontes próximas do Governo angolano defenderam também a tese de que a operação contra a equipa do Togo teria, «supostamente, sido uma acção para incriminar a FLEC descredibilizar Bento Bembe e permitir a Luanda de intervir massivamente no enclave, sem dar hipóteses a negociações ou dialogo», ou seja resolver belicamente a «questão de Cabinda».
Os acontecimentos do 08 de Janeiro justificaram também as mais intempestivas declarações e acusações. É insinuada a responsabilidade francesa, dado que a França alberga uma parcela da direcção política da FLEC. Os Congos, Brazzaville e Kinshasa, também não escaparam a acusações semelhantes e os laços luso-angolanos foram considerados, pela FLEC na Europa, colateralmente cúmplices na acção.
Surgem também declarações que indicam a existência de mandatos de captura internacionais da Interpol e de França contra «os responsáveis do ataque». A Interpol desmente e a França, além de um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, não tem, efectivamente, qualquer acção em curso contra os dirigentes da FLEC e desconhece o paradeiro de Rodrigues Mingas. A única acção judicial confirmada é das famílias das vítimas togolesas que apresentaram queixa em Paris contra a FLEC-PM, Estado angolano, CAF (Confederação Africana de Futebol) e o seu presidente Hayatou Issa,
O padre Raul Tati, Belchior Lanso Tati, o advogado Francisco Luemba, André Zeferino Puati e Benjamim Fuca, todos civis, tornaram-se nos únicos detidos de uma acção que consensualmente foi atribuída à guerrilha. Paradoxalmente, Raul Tati, Belchior Lanso Tati e Francisco Luemba pertencem à corrente que defende uma solução conjunta e pacífica para a questão e a necessidade de todas as partes dialogarem. Com este intuito estabeleceram contactos e tornaram-se na ponte que permitiria a abertura de «conversações preliminares».
Belchior Tati garantira o «correio» entre ambas as partes. A 21 de Julho de 2009, Nzita Tiago, presidente da FLEC, confiara em Paris a Belchior a missão de contactar José Eduardo dos Santos com o objectivo de «por fim à guerra em Cabinda» e «negociar uma solução pacifica». Ainda em França, Belchior envia um e-mail ao assessor do Presidente angolano, Santana Pitra Petroff, onde transmite a pretensão de Nzita Tiago. Petroff, em resposta, sublinha a importância de ser transmitida ao «Camarada Presidente» a missiva do líder da FLEC e termina a carta pedindo a Belchior que transmita a Nzita os seus «cumprimentos e votos de boa saúde e felicidades». Desde a detenção de Belchior, Santana Pitra Petroff ainda não confirmou se a missiva foi entregue ao Chefe de Estado angolano e não se pronunciou sobre as detenções em Cabinda.
Depois de insistir, desde 2006, que não havia guerra em Cabinda e que a FLEC desaparecera, António Bento Bembe, alterou o discurso e passou a qualificar os seus antigos camaradas de armas de «terroristas» incitando que seja lançado um mandato de captura internacional contra os autores do ataque, esquivando-se todavia de esclarecer se o mandato de captura internacional, lançado pelo juiz americano Thomas Hogan e confirmado por Condoleezza Rice, de que ele mesmo é realmente alvo já foi ou não revogado.
O fracasso da incitativa de Bento Bembe, e da sua equipa, no momento da assinatura do Memorando de Entendimento, é agora reflectido na composição do novo Governo angolano. Bento Bembe de Ministro Sem Pasta passa a Secretário de Estado para os Direitos Humanos, e José Inocêncio Gualter é substituído por Aníbal Octávio Teixeira da Silva como Vice Ministro dos Petróleos e desce para Vice Ministro para a Administração.
Na dança das contradições algumas questões ficam por esclarecer. Por exemplo: A acção do 08 de Janeiro, segundo testemunhas, terá durado 15 a 20 minutos de fogo «intenso», e mesmo 30 minutos, segundo o testemunho do capitão da equipa togolesa Wadja, e teria provocado duas vítimas mortais togolesas, Amélété Abalo e Stan Ocloo. O motorista angolano foi indicado como morto e posteriormente como um sobrevivente gravemente ferido. Num tiroteio intenso, de 15 a 30 minutos, com guerrilheiros face a face à segurança angolana, no meio de dezenas pessoas da comitiva togolesa e de populares, não são registados feridos nem outras vítimas mortais.
Também, Angola anunciou a captura de dois presumíveis guerrilheiros que teriam reconhecido a participação na acção, mas não falou mais no assunto e não apresentou o resultado das suas investigações, quando se aproxima um mês que ocorreu o ataque no Massabi. Em vez de guerrilheiros detidos estão civis reputados pela sua insistência na busca de uma solução pacífica para questão de Cabinda. Um assunto que certamente ocupará uma parte importante da agenda do novo Secretario de Estado para os Direitos Humanos.
Rui Neumann |
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